Epigenética

A epigenética é o estudo das alterações hereditárias na função dos genes que não estão associadas a nenhuma alteração na sequência do genoma. Enquanto a genética, como área de estudo, se concentra nos genes e em como as alterações na sequência do genoma podem levar a fenótipos hereditários e irreversíveis, a epigenética aborda como as alterações fenotípicas são provocadas pela ativação ou desativação controlada de genes sem qualquer alteração no código subjacente.

Um exemplo fantástico da epigenética em ação é a metamorfose de uma lagarta em borboleta. Uma borboleta possui o mesmo genoma da lagarta da qual se desenvolve. A epigenética garante a expressão dos genes certos no momento certo durante a metamorfose, ativando alguns genes e silenciando outros de forma controlada.

Regulação da expressão dos genes

O DNA está dentro de cromossomos, compactados dentro do núcleo com o auxílio das histonas. As histonas são proteínas com carga positiva que se ligam fortemente às moléculas de DNA com carga negativa, formando complexos chamados nucleossomos.

Cada nucleossomo é composto por um trecho de DNA que se enrola exatamente 1,65 vezes em torno de oito proteínas histonas. Os nucleossomos se dobram em fibras de cromatina de uma maneira que lembra contas em um colar, e estas são ainda mais comprimidas e dobradas para produzir uma fibra de 250 nm de largura, que é firmemente enrolada na cromátide de um cromossomo.

Mas como tudo isso se relaciona com a epigenética? Em termos simples, o DNA que está firmemente enrolado em torno de histonas não pode ser transcrito porque não pode ser acessado pela maquinaria de transcrição, e tais sequências/genes, portanto, aparecerão silenciados.

Empacotamento e Desempacotamento Repetidos do DNA

Ao longo da embriogênese e da vida de qualquer organismo, a ativação e desativação repetidas de genes – por meio do desempacotamento e reempacotamento do DNA genômico – de maneira coordenada e regulada facilita a expressão gênica diferencial que permite a diferenciação de tipos celulares, órgãos e sistemas corporais com o mesmo código genético, mas com funções distintas, tudo a partir de uma única célula – um óvulo fertilizado.

Como ocorrem as mudanças epigenéticas?

A palavra epigenética deriva do grego ἐπι (Epi), que significa “sobre, fora de, ao redor”, e isso é bastante apropriado, visto que a epigenética ocorre por meio de características que se manifestam “acima” ou “em adição” à base genética tradicional da hereditariedade.

As alterações epigenéticas são desencadeadas por uma ampla gama de fatores, incluindo idade, fatores ambientais (como o uso de drogas, dieta, exercícios e exposição a substâncias químicas), doenças, bem como fatores comportamentais e psicológicos, como humor, estresse, depressão, ansiedade e outros.

As alterações epigenéticas também estão implicadas em doenças, e pesquisas recentes têm destacado a importância da epigenética em muitos tipos de câncer em humanos. Os fatores que influenciam a epigenética constituem um vasto campo de pesquisa que não será abordado em detalhes nesta série, mas você encontrará literatura interessante nesta coleção de revisões importantes sobre epigenética e transcrição.

Tipos de Alterações Epigenéticas

Vimos no vídeo acima que as alterações epigenéticas ocorrem de várias maneiras, incluindo metilação do DNA e do RNA, modificações de histonas e expressão de microRNA. Todas essas modificações influenciam a acessibilidade da cromatina à maquinaria de transcrição, incluindo fatores de transcrição, polimerases e outras proteínas necessárias para a transcrição gênica.

Metilação do DNA

Envolve a adição de um grupo metil a uma base, geralmente o 5º carbono de uma citosina. A metilação do DNA é a modificação epigenética mais intensa. A metilação no carbono 5 da citosina é denominada 5-metilcitosina (5-mC).

A 5-mC tem um efeito silenciador na região metilada e, em geral, quanto maior o nível de metilação em uma determinada sequência gênica, menor o nível de expressão desse gene. Uma modificação relacionada é a 5-hidroximetilcitosina (5-hmC). Ela parece funcionar como uma marca intermediária que, juntamente com outros processos, leva à desmetilação ativa da citosina, reativando assim uma região previamente metilada.

A adição de um grupo metil à citosina é catalisada por DNA metiltransferases (DNMTs) usando S-adenosilmetionina (SAM) como substrato. A SAM é o principal agente metilante presente em mamíferos e é derivada do ciclo da metionina.

Metilação do RNA

A metilação do RNA é uma modificação pós-translacional reversível que ocorre em muitas espécies diferentes de RNA, incluindo mRNA, tRNA, rRNA, tmRNA, snRNA, snoRNA, miRNA e RNA viral.

A metilação do RNA é catalisada por RNA metiltransferases, sendo a N6-metiladenosina (m6A) e a 5-metilcitosina (5-mC) as marcas mais abundantes e comumente estudadas. A m6A sozinha representa 80% de toda a metilação do RNA em eucariotos e às vezes é chamada de "quinta base do RNA", com amplas funções na regulação do desenvolvimento embrionário e dos destinos celulares.

Pesquisas indicam que a metilação do RNA influencia a regulação de inúmeros processos biológicos, como a estabilidade do RNA e a tradução do mRNA, e a metilação anormal do RNA está implicada em muitas doenças humanas, incluindo o câncer.

Modificações de Histonas

Existem cinco tipos principais de histonas (H) que, juntas, compreendem 9 histonas distintas: H1-H5, H2A, H2B, H3 e H4. As principais modificações epigenéticas ocorrem em H3 e H4. Essas modificações incluem a adição de grupos metil, acetil, fosfato ou ubiquitina a resíduos de aminoácidos fixos presentes nas caudas das sequências de proteínas histonas.

Embora o estudo da metilação de ácidos nucleicos possa nos dizer muito sobre como genes e transcritos individuais são ativados e desativados, o estudo de histonas e cromatina pode fornecer uma visão mais abrangente sobre:

• Como o DNA interage com as proteínas estruturais e enzimas envolvidas na epigenética

• Como essas interações regulam e impactam processos críticos, como o desenvolvimento embrionário

• Como processos aberrantes podem levar a distúrbios neurológicos, câncer e outras doenças.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Como cetonas limpam o cérebro?

Cetonas são substâncias produzidas pelo fígado durante as dietas com baixo teor de carboidratos. Possuem múltiplos efeitos metabólicos e moleculares que favorecem a manutenção e restauração da homeostase cerebral, especialmente em contextos de estresse metabólico e neurodegeneração. A fisiologia subjacente envolve metabolismo energético, regulação de estresse oxidativo, sinalização celular e mecanismos de proteostase.

Mecanismos principais

1) Substituição de combustível e otimização metabólica

  • As cetonas (principalmente β-hidroxibutirato e acetoacetato) entram no cérebro através de transportadores monocarboxilatos (MCTs) e são oxidadas nas mitocôndrias, gerando acetil-CoA para o ciclo de Krebs e fosforilação oxidativa. Isso fornece ATP de forma eficiente quando a glicose está limitada ou hipometabólica.

  • A utilização de cetonas diminui a necessidade de glicólise e pode reduzir a produção de espécies reativas de oxigénio (ROS) porque a fosforilação oxidativa de cetonas é mais eficiente em termos de relação ATP/oxigénio do que o metabolismo da glicose.

2) Redução do estresse oxidativo e inflamação

  • Cetonas modulam vias celulares que reduzem ROS e sinais pró-inflamatórios, incluindo ativação de fatores antioxidantes e inibição de inflamassomas como o NLRP3.

  • Elas também influenciam a expressão de genes antioxidantes por meio de sinalização epigenética (por exemplo, modulação de HDAC ou sirtuínas), aumentando a resistência ao estresse oxidativo.

3) Modulação de autofagia e “limpeza” de proteínas danificadas

  • Há evidência emergente de que β-hidroxibutirato facilita a autofagia e a biogênese lisossomal, mecanismos celulares de degradação e reciclagem de proteínas e organelos disfuncionais, crucial para remover agregados proteicos e detritos celulares.

  • Estudos pré-clínicos (evidência recente) mostram que cetonas podem alterar a solubilidade de proteínas mal dobradas, facilitando sua eliminação por vias de autofagia/lysossomal, reduzindo agregados associados a neurodegeneração.

4) Regulação de vias de sobrevivência celular e sinalização

  • Cetonas ativam sensores metabólicos como SIRT1/AMPK/PGC-1α, promovendo biogênese mitocondrial e melhorando a capacidade oxidativa das mitocôndrias.

  • Elas também influenciam neurotransmissão e equilíbrio excitador/inibitório (ex: GABA/glutamato), o que pode limitar excitotoxicidade neuronal.

5) Redução de neuroinflamação e suporte glial

  • Ao suprimir ativação microglial pró-inflamatória e promover fenótipos anti-inflamatórios, cetonas ajudam a reduzir sinais inflamatórios crónicos que contribuem para disfunção neuronal.

Resumindo, as cetonas melhoram a eficiência energética mitocondrial, reduzem estresse oxidativo, ativam vias de detoxificação e autofagia, e modulam respostas inflamatórias e epigenéticas. Esses efeitos combinados promovem a manutenção e remoção de componentes intracelulares danificados e proteicos através de mecanismos celulares de qualidade proteica e metabolismo energético favorável, o que tem sido interpretado como um “efeito de limpeza” neuroprotectivo em contextos patológicos.

A plataforma da saúde metabólica: https://t21.video

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

A resposta à terapia de reposição hormonal depende também da genética

A perimenopausa não deve ser tratada apenas como que da hormonal. O artigo Personalized nutrition and precision medicine in perimenopausal women: A minireview of genetic polymorphisms COMT, FUT2, and MTHFR explica isso (Andrade et al., 2025). Genes isolados não explicam sozinhos sintomas clínicos. Nenhum gene atua isoladamente. Genes funcionam dentro de vias metabólicas integradas. O efeito clínico não vem de uma única variação e sim de vias alteradas.

Genes interagem o tempo todo e na perimenopausa isso não é diferente. Pequenas variações mudam o metabolismo do estrogênio, a resposta ao estresse, a absorção de B12, metilação e níveis de homocisteína, microbiota intestinal, regulação do cortisol. TRH não resolve tudo, é a precisão que muda o tratamento.

Por exemplo, COMT não afeta apenas dopamina. Ele participa da via de metilação e do metabolismo de catecolaminas e estrogênios. O impacto depende da disponibilidade de cofatores, da atividade de outras enzimas e do contexto fisiológico. COMT lenta gera mais sensibilidade ao estrogênio e ao estresse, com mais irritabilidade, ansiedade e insônia. Em um contexto de estrogênio instável, variantes em COMT só se manifestam clinicamente se a via de metilação estiver sobrecarregada ou deficiente. Na prática, olhar também a via da metilação e trabalhar junto. Adequar terapia, com doses menores de hormônios, via transdérmica e suporte à metilação.

O FUT2 não é um gene intestinal isolado. Ele influencia a composição da microbiota, a absorção de vitamina B12 e, indiretamente, vias imunometabólicas. O efeito clínico depende da interação gene–microbiota–nutrientes. Na menopausa, alterações intestinais e inflamatórias tornam essa via crítica para energia, cognição e resposta imune. Na prática, o paciente pode precisar de probióticos selecionados, prebióticos e B12 na forma ativa.

O MTHFR não determina sozinho a capacidade de metilação. Ele atua dentro da via do folato, integrada ao ciclo da metionina, ao metabolismo da homocisteína e à regulação epigenética. As variantes patogênicas de rs1801133 e 131 afetam a conversão do folato, aumentam a homocisteína, o risco cardiovascular. Na prática, pode ser necessário suplementar metilfolato, P5P, B12 ativa e monitorar risco cardiovascular. Lembre de avaliar também os outros genes da via do folato.

COMT, FUT2 e MTHFR funcionam de forma integrada e é essa interação influencia o bem estar da mulher, a metabolização de hormônio, os níveis de estresse e de inflamação. Sintomas como fadiga, ansiedade, névoa mental, ganho de peso e piora do sono emergem da convergência dessas vias, não de um gene específico. A vida em qualquer fase, incluindo perimenopausa e menopausa, exige leitura integrada de vias hormonais inflamatórias e de metilação. Genômica clínica não é lista de SNPs. É visualização de sistemas.

Curso: Genômica Visual. https://bit.ly/genomica-visual

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/